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Saúde mental da mulher

Depressão na gestação: um tema pouco falado

Espera-se que a gravidez seja um período feliz. Quando não é, a mulher costuma enfrentar dois problemas ao mesmo tempo: o sofrimento em si e a culpa por sentir o que sente num momento em que "deveria" estar bem. Essa culpa é justamente o que faz a depressão na gestação — chamada de depressão antenatal ou pré-natal — permanecer tão silenciosa.

Ela não é rara. Estudos internacionais mostram que sintomas depressivos clinicamente relevantes atingem uma parcela expressiva das gestantes, com números maiores em países de renda baixa e média e em situações de vulnerabilidade social, violência doméstica ou gravidez não planejada. Ainda assim, é frequentemente confundida com "coisa de hormônio" e não chega a ser avaliada.

Por que passa despercebida

Vários sintomas da depressão se sobrepõem a queixas normais da gestação: cansaço, alterações do sono, mudanças de apetite, menor disposição. Um pré-natal focado apenas em pressão, peso e exames pode atravessar nove meses sem nunca perguntar como a mulher está se sentindo.

O que ajuda a diferenciar não é o sintoma isolado, mas o conjunto e a persistência. Merecem atenção, quando duram mais de duas semanas na maior parte dos dias:

Pensamentos de morte durante a gestação ou o puerpério nunca devem ser tratados como algo passageiro. Fale com alguém agora: CVV 188 (gratuito, 24 horas) ou SAMU 192 em caso de risco imediato. Se você é familiar e percebeu esses sinais em uma gestante, não deixe para depois — procure ajuda junto com ela.

O rastreamento é simples

Existe instrumento validado e de aplicação rápida para isso. A Escala de Depressão Pós-Natal de Edimburgo (EPDS), apesar do nome, é usada e validada também durante a gestação: são dez perguntas que a própria mulher responde em poucos minutos. Ela não fecha diagnóstico — indica quem precisa de uma avaliação mais cuidadosa. Aplicá-la de rotina no pré-natal é uma das formas mais baratas e eficazes de não deixar esses casos passarem.

Foi em torno desse campo — depressão antenatal e risco de suicídio na gestação — que se concentrou minha pesquisa de mestrado e doutorado no Programa de Medicina Molecular da UFMG, sob orientação do professor Humberto Corrêa, e parte dos trabalhos que publiquei em periódicos internacionais.

Tratar a depressão na gestação não é escolher a mãe em vez do bebê. Depressão não tratada também tem consequências para os dois.

O dilema do tratamento — e como ele é resolvido

A pergunta que quase toda gestante faz é se pode tomar medicação. A resposta honesta é: depende, e a decisão é individual. O que não existe é "risco zero" de nenhum dos lados. A depressão grave não tratada está associada a pior adesão ao pré-natal, pior alimentação, maior uso de álcool e tabaco, maior risco de prematuridade e baixo peso ao nascer, maior chance de depressão pós-parto e prejuízo no vínculo com o bebê. Medicamentos, por sua vez, têm perfis de segurança diferentes entre si e ao longo dos trimestres.

O trabalho do psiquiatra aqui é justamente esse: pesar risco e benefício caso a caso, junto com a paciente e em diálogo com o obstetra. Em quadros leves a moderados, a psicoterapia pode ser a primeira escolha. Em quadros moderados a graves, ou com história prévia de recaída grave, manter ou iniciar medicação costuma ser a conduta mais segura — na menor dose eficaz e com acompanhamento próximo.

Há um erro que se repete e que vale destacar: interromper por conta própria um antidepressivo ao descobrir a gravidez. A suspensão abrupta é uma das principais causas de recaída nesse período, muitas vezes mais grave do que o quadro original. Se você está grávida e em uso de medicação psiquiátrica, converse antes de mudar qualquer coisa.

O que ajuda além do tratamento formal

Rede de apoio faz diferença mensurável. Ter com quem dividir tarefas e medos, poder falar sobre ambivalência sem ser julgada, dormir minimamente, manter alguma atividade física orientada e reduzir isolamento são fatores associados a melhor evolução. Nada disso substitui tratamento quando ele é necessário — mas nenhum tratamento funciona bem numa vida sem suporte nenhum.

Está grávida e não se sente bem emocionalmente?

A saúde mental da mulher no ciclo gravídico-puerperal é uma das áreas de atuação e de pesquisa do Dr. Tiago.

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